O mundo me parece um lugar feito de crueldade e ruído, e no fundo quase ninguém se importa de verdade. As pessoas andam por aí ocupadas demais com o próprio bel-prazer, pisando sem nem olhar em volta, anestesiadas na próprio mente.

Me questiono se essa visão não é totalizante ou simplista demais. É claro que as pessoas costumam ser egocêntricas, mas rotular tudo puramente como “crueldade” pode confundir. A indiferença, muitas vezes, não é um plano maquiavélico, é apenas um mecanismo de defesa natural. Muitas vezes, o que parece maldade é só cansaço, instinto de sobrevivência ou a vida batendo mais forte.

A Ilusão do Controle e a Realidade do Momento

Até você se acostumar com a realidade subjetiva da vida, não haverá paz. Talvez seja necessário atravessar esse rio tantas vezes para perceber que, na verdade, você sempre foi o rio! Talvez, nesse lógica, faça sentido quando o Budismo fala sobre Buda, renascimento, nirvana… Quantas formas de vida, quantas transformações a matéria precisou passar para que o homem fosse capaz de entender? Não só isso, mas o próprio fator da reorganização, o período, o contexto e o background para que a mente perceba a dualidade da própria manifestação e do produto da consciência…

Claro, você poderia argumentar que falar é fácil – e concordaria – reconheço como é difícil manter esse estado quando o estresse biológico ou a ansiedade batem na porta – o ego não se dissolve só porque você entende um conceito ou o princípio por trás da teoria. Mas isso não tira a nossa responsabilidade.

Contexto: Dark Matter (Apple TV)

O Jason que busca controle, perfeição, que a realidade seja exatamente igual ao que ele pensa que deve ser, esse nunca será feliz de verdade, porque ele está constantemente tentando manipular o real. A Amanda que caminha com ele é uma versão do que ele precisa enxergar, um espelho, tudo para entender que o que é real agora é tudo o que importa. Não importa quantos mundos se viva; se viver pensando que o mundo em que se está é errado, então sua realidade nunca estará completa. Amanda entende isso, ela se adapta, e apesar de ter escolhido ficar em outra realidade, ainda sim é um escolha desapegada. Onde quer que esteja, parece feliz e sábia. E talvez, a outra versão do Jason que perdeu tudo aquilo que ele mais queria na vida fosse a versão certa para ela, assim como um espelho que conecta duas imagens refletidas.

Lógico que, quando falo de aceitação e adaptação, não é desistir de tudo ou se acomodar, mas abandonar a ilusão de que algum dia você teve controle, não se pode forçar o universo a se curvar à sua subjetividade e ao seus ideais. O desapego completo às vezes pode se disfarçar como desapego emocional ou evitar fazer escolhas difíceis.

Objetividade Absoluta

Quem é o observador? O que somos, senão o acúmulo do resultado das nossas experiências, personalidade, temperamentos, formas de pensar… Somos feitos de história, corpo, linguagem, afetos e hábitos? O que nos resta quando se arranca fora tudo isso? Existe algo como uma consciência anterior à identidade?

Não acredito que seja possível [objetificar completamente a realidade]{A ilusão de um “olhar de lugar nenhum”. Confunde a existência de um mundo independente com a possibilidade de acessá-lo sem a mediação da mente.}.

Não se pode eliminar o intérprete, porque toda percepção já é um ato de seleção e relação, e a própria [percepção pressupõe a análise]{Para que você consiga perceber algo, o seu cérebro precisa, obrigatoriamente, processar aquilo primeiro. A percepção depende diretamente do ato da medição. A análise é a base ou o “alicerce” da percepção.}. Mas podemos torná-lo explícito com a auto-observação, a suspensão de pressupostos e revisão contínua. É sobre reconhecer os filtros e ver o que acontece quando a gente suspende eles temporariamente. Eliminar as construções e procurar o que resta quando se deixa de lado a própria identidade — moldada por anos de interação no mundo — é um experimento que só o tempo pode testar.

E a realidade, será que ela pode ser o que “queremos” se não quisermos nada dela? Apenas fluir é o caminho? Talvez fluir não seja abandonar o desejo, mas não exigir que o mundo se ajuste a ele. Não é ver sem lente, é aprender a ver a lente.

O nome filosófico para isso é époché fenomenológica de Husserl. Mas tem uma ironia: para Husserl, essa suspensão não leva a um vazio sem sujeito; leva à descoberta de um “eu puro” ou consciência transcendental, que ainda constitui o mundo como fenômeno. Ou seja, mesmo ao tirar a biografia e as opiniões, algo ainda interpreta e organiza a experiência.

A questão deixa de ser “qual é a verdade última? como ver a realidade sem um eu?” ” e passa a ser: “quais construções estou confundindo com a realidade agora?”. Talvez a realidade não precise de mim para existir, mas precise de mim para aparecer. Não posso remover o observador. Posso apenas observar o observador. Quando deixo de querer que o mundo seja de um jeito, ele não se torna mais “objetivo” — torna-se menos refém do meu desejo. E talvez seja isso fluir: não a ausência de eu, mas a diminuição da resistência entre eu e mundo.

Essa intuição dialoga com a ideia budista de não-eu (anattā): a identidade não é uma essência fixa, mas um processo de experiências, percepções, memórias e reações que se entendem como um “eu” isolado.

Nessa perspectiva, “fluir” não significa passividade ou ausência de vontade. Significa perceber que o desejo, o medo, preferências e identidade são eventos na consciência, não necessariamente comandos que definem o que a realidade é.

Projeção e Subconsciente

A frase: “as pessoas buscam aquilo que lhes falta dentro delas”. Num casal, pode ser um parceiro que remeta à própria mãe. Na psicologia, é um estado real de como o subconsciente se move em seu próprio caminho, uma dinâmica neurológica, quer você gostando ou não. Por mais contraintuitivo que seja, você não precisa querer.
Nada precisou vir antes. Não houve pré-requisito para ir além do próprio [modus operandi]{o subconsciente}.

Abaixo das camadas ilusórias — frágil, superficial, criada pela consciência interpretativa — restam os sentidos mais básicos: a [interconectividade]{sensação de que nada existe isolado; relação antes de identidade.}, o [instinto]{reação anterior ao raciocínio; o corpo sabe antes de a mente explicar.}, a [percepção]{contato direto com o que aparece — som, luz, textura, presença.}, o [impulso]{força que move antes de ser justificada.}, a [memória-corporal]{aquilo que o corpo guarda mesmo quando a mente esquece.} e a [necessidade]{fome, sono, abrigo, vínculo; o que sustenta a existência antes de qualquer significado.}.

Exemplo real: a mulher reclamando com o marido porque ele não fez algo, que nunca fez tal coisa, e aquilo que ela objetifica contra o que ele é no presente, não feliz com o que vê, e não por uma ideia fixa do que ele representa.

Queremos que a realidade se manifeste de forma perfeita às nossas objeções. Tendemos a nos irritar se for o contrário, esperamos da vida algo que ela não é. Esse é o problema da consciência, do intérprete, do ser que busca expectativas, daquele que rejeita o real em última instância.

E há um paradoxo nisso tudo: até mesmo pensar sobre isso significa que a minha mente está avaliando e “objetificando” a realidade agora mesmo. A aceitação total é uma Assíntota – podemos nos aproximar dela, mas continuamos sendo organismos interpretadores.

O Observador e o Fluxo da Vida

Mas é claro que, no fundo, nós tecemos nossa própria realidade, condicionados pelas limitações individuais e separativistas da mente.

Mas o erro é justamente ignorar essa dinâmica ao deixar passar despercebido:
a tendência da consciência de abstrair e separar; de fragmentar e desmembrar o todo. Ou melhor, parafraseando Edgar Morin, que foi uma das mentes mais importantes da atualidade, cujo legado intelectual recentemente nos deixou:

“A consciência tende a recortar a realidade para poder pensá-la: nomeia, separa e abstrai. Isso é necessário, mas torna-se um erro quando o recorte é esquecido como tal. Aí a parte passa a parecer independente do todo, o elemento se confunde com a causa, e o complexo é reduzido ao simples. A mente opera de modo disjuntor e redutor — separando o que está ligado, isolando elementos de seus contextos e tratando cada fragmento como autossuficiente, alheia às relações e retroalimentações que constituem o todo. Compreender exige o movimento contrário: distinguir sem separar, analisar sem fragmentar e religar o que o pensamento desarticulou. O desafio não é abandonar a análise, mas religar o que ela separou. O erro não é distinguir, e sim [disjungir]{separar o que está ligado e esquecer que a parte só existe nas relações que a constituem.}”

É esse olhar que define e transforma a existência. Se ignorarmos o processo, travamos qualquer potencial e possibilidade de vir a ser.

Eu gosto da ideia de, intencionalmente, martelar um conceito por vários ângulos, acredito que isso nos ajude a abristrair de forma mais complexa as ideais, pois cada mente pode reagir de um modo ao repertório que possue.

O homem é como o animal: ele quer comer, cagar, mijar, andar, relaxar e dormir. 

Olhamos para fora e tendemos a enxergar os objetos isolados — seres destacados do ambiente. E a própria natureza converge para isso. Mas não querendo desmerecer os instintos como meras “falhas” biológicas. Enxergar a natureza como hostil não é uma ilusão, é um mecanismo de sobrevivência — um viés evolutivo que funcionava e mantinha nossos ancestrais vivos na savana. Então antes de tentar transcender a biologia é preciso entender isso também, e reconhecer que, no core, esses elementos são neutros e não possuem valor intrínseco. É o observador que projeta neles o perigo.

No fim das contas, a existência também nos ensina: o que é a vida, senão o instante presente em sua maior e mais completa imensidão e totalidade de presença.

A conclusão

A nossa mente foi moldada fisicamente para fragmentar o mundo apenas para sobreviver, é uma projeção puramente utilitária.

É importante a gente entender isso, pois, quando o véu se revela e desbloqueia sua visão, tudo se torna mais claro. É possível enxergar as contradições da vida humana e viver com maior plenitude e harmonia com o que o mundo tem a oferecer para nós, e perceber que, mesmo nos pequenos detalhes, se pode aprender com tudo o que vivemos. Cada instante de cognição é perfeito, seja o que for. Querendo ou não, temos essa oportunidade.

Mas, como tudo na vida, não podemos cair na armadilha de achar que a clareza é um destino final e permanente. As percepções (insights) vêm em ondas; amanhã eu provavelmente vou cair de novo na cegueira e na frustração, e essa natureza cíclica é parte do processo, não falha dele.